É bem mais que uma data

Fonte: Jornal do Commercio

Opinião – 20/nov/18

Dia da Consciência Negra poderia
passar apenas como mais
uma data no calendário, talvez
comemorado com algum tipo de manifestação
por uns, por outros até com
fanfarras como se comemoram datas
festivas, mas há neste 2018 um fantasma
sobre nossa nação que vem mostrando
as garras, causando assombrações
e exigindo uma reflexão mais profunda
sobre este dia. As redes sociais
são vitrines para os rugidos e todo tipo
de recalque, preconceito, ignorância,
mas foi uma carta que chegou ao Centro
Acadêmico de Geografia da Universidade
Federal do Pará que deu o tom da
gravidade do discurso de ódio que está
reproduzindo sintomas de uma forma
de peste moral com o mesmo teor destrutivo
da peste medieval num país que
não teve Idade Média. A exacerbação
desse discurso é a aplicação atual do termo
“negra” que historicamente acompanha
a peste do século 15.
No século 21 lê-se na carta que escandaliza
a Universidade Federal do Pará,
em Altamira: “Bem-vindos ao fascismo!
Agora é a nossa vez, agora é o nosso momento,
vocês vão ter que engolir porque
vamos passar por cima de cada um
de vocês, cada gay, cada sapatão, preto
e preta. Vamos exterminar cada um de
vocês. Vamos destruir cada um desse
tal movimento estudantil, começando
por vocês do Diretório Acadêmico, vamos
começar com a preta que se acha
dona da razão na coordenação geral do
D.A, vai aprender a ficar calada, vai
aprender a ficar no lugar dela, vai
aprender que preta não tem voz e nem
vez, vamos exterminar cada um de
vocês. Vão morrer um por um, cada preto
e preta que acham que podem sair da
senzala”.
Essa manifestação de ódio já está entregue
à investigação do Ministério Público
Federal, mas qualquer que seja a
conclusão pouco acrescentará ao fundamental:
isso é, literalmente, incitação
ao genocídio e deveria transformar em
leitura obrigatória, por todos os brasileiros,
de todas as raças, o livro O Genocídio
do Negro Brasileiro – Processo de
um Racismo Mascarado, de Abdias Nascimento.
Ele traz à tona o que já emergiu
como discurso em torno do governo
eleito em outubro. Pode ser provocação,
mas está lá, na carta de ódio que
surgiu na Universidade Federal do Pará,
a proclamação e o orgulho por uma
ditadura, pelo fascismo, pelo único militar
declarado judicialmente torturador.
O registro deste JC ao anunciar a chegada
do Dia da Consciência Negra, neste
20 de novembro, diz o suficiente para
explicar – em termos racionais – o significado
da data: “Segundo país com a
maior população negra ou de descendentes
de negros do mundo – são 112,7
milhões de pessoas autodeclaradas pardas
ou negras (54,9% dos habitantes),
conforme o Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE) –, o Brasil
avançou na definição de políticas de inclusão
por etnia. Mas é ainda essa parcela
da população a mais vulnerável à violência
e ao desemprego. Questões como
essas estarão ainda mais em evidência
esta semana, durante a programação
que marca o Dia da Consciência Negra